Da peste negra ao covid-19: uma história

Wuhan, cidade chinesa localizada da província de Hubei, viu seu nome se popularizar mundialmente após tornar-se o epicentro de uma pandemia que alterou a ordem do dia no mundo. Não é possível precisar se de fato o covid-19 iniciou sua circulação em Wuhan, porém, para além do local exato, o fato é que a dinâmica da sociedade global sofreu um golpe em todas as suas esferas e, ao mesmo tempo, espera-se respostas para este problema. Seria esta alteração gerada por um fator biológico a primeira a ocorrer na história?

Ao longo da aventura humana na Terra as alterações sociais são constantes e podem ser desencadeadas por fatores políticos, econômicos, militares e há, também, as geradas por fatores biológicos. Um desses fatores biológicos que impactou a sociedade europeia do século XIV foi provocado por uma bactéria, a yersínia pestis, nome científico da famosa Peste Negra, também conhecida como Peste Bubônica. De acordo com dados atuais, podemos compreender melhor a ação da bactéria cruzando informações da época com pesquisas recentes sobre a Peste Negra. Assim, observa-se que a manifestação da doença se dividia em três tipos: Peste Bubônica ou Peste Negra, quando se manifestava na pele; Peste septicêmica, quando a bactéria se multiplicava no sangue; e Peste pneumônica, quando a consequência da ação da bactéria gerava uma severa pneumonia no indivíduo.

Não é possível precisar a origem da Peste, porém, a proliferação da doença se deu no intenso trânsito comercial do mar mediterrâneo, com navios mercantes que iam e viam ligando Europa, África e Ásia. Ao chegar na Europa pelos portos italianos ela teria se espalhado em velocidade assustadora, contagiando quase todo o território europeu em poucos anos. Os centros urbanos medievais careciam de saneamento básico e higiene adequada, o que favoreceu a proliferação da pandemia disseminada por ratos. Alguns cálculos apontam que entre 1347 e 1351, vinte e cinco milhões de europeus morrem com a peste, o que equivalia a um terço da população.

Um médico da peste, pintura por Paul Fürst – Wikipédia

Outro aspecto que favoreceu a proliferação da doença se liga à mentalidade medieval. À época a igreja era a responsável por ditar as regras sociais, o que levou a igreja católica a classificar a peste como decorrência da ira de Deus aos que estavam em pecado, o que fez com que muitas pessoas fossem às igrejas, gerando mais contágios, em busca da cura e do perdão dos pecados, caso morresse. Não existiu uma cura para a Peste, mas aos poucos a população foi adquirindo hábitos de higiene que favoreceu seu desaparecimento.

Séculos depois da Peste Negra, outra pandemia transformou a vida das pessoas, trata-se da Gripe espanhola, causada pelo vírus influenza, que entre 1918 e 1920 infectou cerca de 500 milhões de pessoas. Estima-se que o número de mortos esteja entre 17 a 50 milhões. Apesar do nome Gripe espanhola, não foi na Espanha que o vírus iniciou sua circulação. Sabe-se que a imprensa da Espanha trazia muitas informações sobre os contágios e a amplitude que a gripe ganhava. Com isso, popularizou-se o epiteto de gripe espanhola. A origem precisa da gripe não é possível afirmar, porém, para alguns pesquisadores o foco inicial teria sido os Estados Unidos.

Soldados de Fort Riley, Kansas, doentes de gripe espanhola, sendo tratados em uma enfermaria de Camp Funston – Wikipédia

O século XXI mal completou duas décadas e já se vê forçado a uma parada. A pandemia covid-19 é uma situação grave que exige seriedade nas ações de contensão do problema, mas não é primeira e nem será a última. Como observou o historiador Pierre Rosanvallon sobre o método do historiador, “a história objetiva entender como em uma época, um país, ou um grupo social tenta construir respostas para aquilo que, com maior ou menor precisão elas percebem como um problema”. Como sociedade estamos organizando esforços com a finalidade de superar este cenário contrário e, dos vestígios dessas ações, os historiadores do futuro examinarão nossa história.

Capa: Pixabay

Um comentário em “Da peste negra ao covid-19: uma história

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    julho 11, 2020 em 9:34 pm
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    Gostei muito. Bem informativo.

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