A Academia de Letras não é um fim em si mesma.

Qual é o objetivo da Academia de Letras? Qual a razão de sua existência? O que faz a Academia de Letras? Qual a sua função? Como bem disse Filgueiras Lima em sua oração proferida a 15 de agosto de 1951, na Academia Cearense de Letras, “Não devem ser as academias igrejinhas de maior âmbito em que o espírito de Coterie possa manifestar-se mais ampla e desenvoltamente. O seu objetivo não é o mutuo turibular do incenso da lisonja: não é o reciprocar permanente de elogios bajulatórios, nem a permuta oficial de láureas e títulos honoríficos. Reduzidas a essa função de instrumento de vaidade pessoal e da fatuidade humana, transformar-se-iam, por certo, num entrave ao progresso das letras que essencialmente, lhes compete incrementar, ampliar, desenvolver e dirigir. Academia de Letras que não é foco de cultura, que não acende ideais de elevação mental na alma de um povo ou de uma nação, que não aprimora e opulenta os recursos da língua nacional, assegurando-lhe o resguardo e patrocínio das formas e modos expressionais de maior beleza e pureza idiomática – é Academia que não tem consciência de si mesma, do seu papel, da sua função, da sua autoridade, do seu ministério, da sua força. Se não exerce influência na difusão das letras e na formação da sensibilidade estética do povo em geral, deixa de representar um órgão de vital importância no desenvolvimento histórico e cultural do país”.

Objetividade
“Academias de Letras como grêmios literários, para o só e monótono declamar de versos e discursos, vazios de conteúdo humano e social, desligados da realidade viva da época e do meio, nada constroem, nada significam, nada deixam: são anacronismos incompatíveis com as necessidades e problemas culturais do nosso tempo”.

Ser e não apenas estar

A Academia de Letras não é um fim em si mesma. É o meio pelo qual os acadêmicos afiliados se utilizam para imortalizar os seus trabalhos escritos. “Imortalidade – é a palavra mágica das academias. O instinto de conservação busca nesta ilusão de vida literária eterna uma compensação, que a psicanálise explica e desvenda, para a dissolução orgânica, fatal e irremissível. Mas o conceito de eternidade não se comporta dentro dos quadros estreitos e materiais da terrenalidade. O que é humano e terreno é também perecível e imperfeito. Ainda que a alma, partícula do divino, segundo Platão, seja a fonte da beleza literária e das criações estéticas – nem por isso podemos pensar numa imortalidade adstrita ao conceito cronométrico, e não metafísico, de tempo…”.

A Academia de Letras está para o escritor, como a chuva está para a terra. O escritor planta e a Academia de Letras faz com que essa planta se consolide, se fortaleça e se multiplique espalhando esse pensamento e o conhecimento estabelecido pelo autor em gerações posteriores atingindo assim a imortalidade no proposto pelo escritor. “O ´monumentum aere perennius´ de Horácio, ainda que não tenha sido destruído após dois mil anos, e, antes, se nos apresente cada vez mais venusto e mais sólido, por quanto tempo permanecerá de pe? Que representam os ´séculos sem número´do venusino genial diante dos séculos sem fim da eternidade?”

Nem o tempo apaga os efeitos dos seus feitos. Como a chuva não pode apagar as conseqüências do que regou caindo na terra. Uma vez que caiu tudo que é semente, que foi molhada, brota. Boa ou má, mas brota. Se vai vingar e crescer, ninguém sabe e se crescendo vai produzir frutos, ninguém pode garantir, mas vai ser e não apenas estar.

Foto: Ednei Pereira

Eleição da prioridade

Somos convidados a eleger nossas prioridades, antes que seja tarde demais. É necessário, neste momento, dar importância ao que é do nosso interesse hoje, não deixando para depois. Manoel Dantas era daqueles que gostava de contar estórias e juntava os sobrinhos para contá-las. Muitas delas mentirosas até. Ele trabalhava nas caldeiras colocando lenha para gerar a energia da cidade. Fumava um cigarro de palha, dos mais fedidos e tomava muita cachaça. A esposa era evangélica e os filhos também. Manoel disse que um dia também seria. O tempo passou, ele envelheceu, ficou cego, parcialmente surdo e agora já desgraçado pelas intempéries da vida e dos anos resolveu que seria o momento de se tornar “crente” como costumava dizer. Foi batizado numa igreja evangélica, mas não podia mais fazer nada por alguém ou mesmo para a igreja, já que nem mesmo condição tinha de ir à igreja. Trazia consigo o contrário do dito popular: “Não faça hoje o que você pode deixar para fazer amanhã, nem que não faça amanhã também!”

“A Autoridade repousa sobre a razão

Quando ainda na faculdade eu tinha um professor de arqueologia, Dr.Júlio Shuwantes, que dando sua aula, vez por outra, parava para corrigir um texto que ele dizia estava errado. Fato curioso era que o livro em que estudávamos era de autoria dele mesmo. Mas ele dizia: “Esta parte está errada porque eu fiz este livro baseado em diversas pesquisas de outros autores e ocorre que este autor aí está equivocado neste aspecto, eu estive lá neste lugar, nesta escavação arqueológica e vi que não é assim como ele escreveu…”.

Só podemos falar ou escrever aquilo que nos compete como autoridade. Eu jamais poderei fazer uma palestra ou escrever sobre medicina ou direito, não tenho essas formações, não sou autoridade nesses assuntos. Sou teólogo, logo, procuro ser autoridade na minha área. Nada vale mais do que o testemunho. Veja, eu estive lá, eu vi! Eu estudei, eu sei. É fantástico! Como disse Saint Exuperí, autor de O Pequeno Príncipe: “A autoridade repousa sobre a razão”.

Não tenho tempo

O grande reformador Protestante Martinho Lutero costumava dizer: “Estou tão ocupado hoje que resolvi tirar duas horas do meu tempo para ler e meditar na palavra de Deus e falar com Ele”.A gerência do tempo está na capacidade de se priorizar os objetivos mais profícuos. Quando a sabedoria nos fizer enxergar os resultados das nossas escolhas de hoje, certamente saberemos amanhã que a nossa decisão foi inteligentemente acertada ontem. Enquanto isso apenas virão as desculpas: Já tinha um compromisso pré-agendado para essa data, vou ao aniversário da mãe da tia do primo de minha empregada, vou dar aulas, vou a um congresso muito importante, lembrei que nesta data vou estar com dor nas costas… Não tenho tempo!

A lição da semente

Eu estava pastoreando no Paraná e fazia uma conferência pública em Londrina. Ali trabalhamos duro com cursos como deixar de fumar, lições sobre saúde e economia doméstica, com os seus respectivos palestrantes e posteriormente o curso bíblico. Muitas pessoas vieram assistir a programação e no final de três meses, cinqüenta e sete pessoas aderiram à igreja através do batismo. Foi construída uma nova igreja naquele bairro onde esses novos conversos iriam se reunir. Passados três meses quinze saíram, abandonaram a fé. Depois de cinco meses outros dezenove também se foram. Os motivos eram os mais variados possíveis. Infelizmente após dez meses restaram apenas nove pessoas, quarenta e oito abandonaram o compromisso que haviam abraçado tão fervorosamente.

Um ano e meio depois que eu havia estado lá naquela conferência eu voltei e para a minha grata surpresa já faziam parte do grupo cento e cinqüenta e três novos conversos. Fruto do pequeno grupo que ficou. Diminuiu para multiplicar. A boa semente nasce, cresce e dá bons frutos. Mesmo em face de sua quase morte.

Foto: Ednei Pereira

Tempo, tempo, tempo…

Impressiona-me ver as Academias de Letras lotadas de octogenários. Parece que estiveram a vida inteira envolvidos e comprometidos com suas próprias profissões, atrás do vil metal, relegando a segundo plano a vocação literária e artística para quando aposentassem e não tivessem mais nada para fazer. E, para não ficar com a vida ociosa, sentados, esperando a morte chegar na inércia, foram ocupar uma cadeira na Academia de Letras. Farda e chá com biscoitos para a barriga, companheiros velhos para jogar fora às mesmas estórias todo dia e ainda ter quem as suportem o tempo todo, numa recordação vazia e interminável, num conformismo sem fim. Há de se dar valor ao momento presente, ao hoje, ao agora. O tempo passa rapidamente e se vai, para nunca mais voltar. As oportunidades que se nos apresentam são ímpares em face dos bilhões que não as tem e que para eles são inatingíveis. São as mais importantes do mundo, porque são as minhas oportunidades e vão determinar o que eu posso alcançar, aqui e na eternidade.

Há riqueza na diversidade

 Importante é lembrar da imprescindível diversidade de vocações, aptidões e dons apresentados nas Academias de Letras. São médicos, engenheiros, jornalistas, professores, bioquímicos, teólogos, empresários, poetas, pensadores, cronistas, contistas, profissionais liberais dos mais diversos, entre tantos outros. Sem discriminação, sem ordem de importância, pois todos o são. Somos tijolos de uma mesma parede. São pessoas capazes de fazer a maior revolução já pensada na sua área com seus escritos. Vulcões do saber e hábeis na forma das erupções de seus conhecimentos e materialização na mente das pessoas. É esta riqueza de conhecimento e troca de experiência entre os confrades que faz crescer o nível de credibilidade de uma instituição e lhe traz o título de “Luz do conhecimento”, “Fonte de sabedoria” e demais elogios cabíveis, dada a sua participação na esfera do crescimento mental e intelectual do ser humano, no âmbito de sua atuação e na geografia geral que possa atingir.

O título de “Doutor Honoris Causa” que é um título de grandeza honorífica – ou seja: grande homenagem. Títulos que não se compra e nem se vende – claro que há uma adesão, para sustento da instituição, nenhuma entidade subsiste sem recursos financeiros e mesmo o próprio objetivo é criar novas seccionais em todos os cantos e recantos do Brasil e do mundo.

Lealdade ao compromisso

A maior ferramenta da vida de um ser humano é a palavra. Ninguém sobrevive sem ela. Seja dada em qualquer expressão possível. Nenhuma instituição, por mais rica que seja, pode desprezar ou desprestigiar a palavra pronunciada a um compromisso assumido. É mais importante do que contribuições, em qualquer de suas formas. “A maior necessidade no mundo hoje é de pessoas que não se comprem, nem se vendam, que no íntimo de sua alma seja tão fiel a Deus, como a bússola é ao pólo”. Sendo fiel a Deus, claro, sem dúvida, será fiel ao próximo e a si mesmo e conseqüentemente será leal ao compromisso assumido com a instituição que o acolheu. E será vitorioso e feliz na consecução de suas metas, planos e objetivos propostos, e, na perpetuação de sua criação. Para mim tem que ser um privilégio e não um fardo o participar e integrar um grupo que deixará na história uma parte de mim, do meu ideal, mesmo à custa de qualquer sacrifício.

Foto: Ednei Pereira

Sofrendo do mesmo mal

Recentemente fui convidado para uma reunião de uma instituição literária. Fiquei constrangido com a mínima participação dos seus integrantes, pois dos trinta e nove membros, apenas quatro, eu disse, quatro, estavam presentes. Ouvi de um outro, também presidente de instituição literária: se você está começando a entidade com vinte pessoas, saiba que contará com dez! Comentei com o digno colega presidente daquela instituição: sofremos do mesmo mal, só muda a geografia. Parece haver algo na atmosfera que tem anestesiado o nervo do controle pessoal, dando rédeas solta à procura do meu interesse pessoal em detrimento do coletivo. Em países totalitários, sim, mas em comunidades democráticas é pouco provável, (não podemos garantir que não ocorra), que alguém seja obrigado a assumir um compromisso que não queira. Mas, nesse aspecto, uma vez que aceite participar é imprescindível que se cumpra o que está estabelecido. Não somente a simples participação, presença, mas a integração no processo de desenvolvimento e ascensão da instituição em foco. Não pergunte o membro: o que a Academia de Letras pode fazer por mim, mas o que eu posso fazer para colaborar no desenvolvimento cultural do meu povo através da Academia.

Quando ainda pastor atuante, talvez, até por força da vocação, eu ficava à porta do templo contando os membros, quantos vieram, quem não veio e porque será que não veio(?). Com o tempo pude observar que esta prática não era saudável. Eu estava equivocado porque buscava a quantidade em vez de prezar pela qualidade. Não é na multidão que está a ciência da vida melhor. Como se diz: “É nos pequenos frascos que estão os melhores perfumes”. Mais do que trabalhos literários precisamos de comprometimento. Achei incrível que mesmo sendo um líder democrático, aquele que delega funções, tenha que agir como um líder autocrático, o que decide sozinho. É o momento de reflexão, como pode numa instituição se convidar os membros para uma reunião e oitenta por cento não virem? Convocam-se os membros da diretoria e nenhum comparece? Para que então entraram para a agremiação e assinaram no livro e no estatuto que concordavam com os princípios ali estabelecidos? A pessoa conquistou e agora é necessário preservar. “Guarda o que tens para que ninguém tome a tua coroa”. (Bíblia Sagrada). O Brasil tem cento e oitenta milhões de habitantes e apenas cerca de oito mil fazem parte de uma Academia de Letras, das pouco mais de duzentas que temos no país. Portanto é um grupo bem seleto de imortais. Certamente muitos almejam, mas não tem a capacidade dos que estão dentro delas. Mas, infelizmente, não vestindo a camisa e dando a devida importância. “Mais do que a simples inteligência, precisamos de afeição e doçura, (para com pessoas e instituições) sem essas virtudes a vida será de violência e tudo será perdido – Não sois máquinas, homens é que sois e com o amor da humanidade em vossas almas!”.  (By Charles Chaplin).

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *