Dependência Química e entrelaços pessoais.

Fiquei pensando por onde começar a escrever sobre a dependência química sendo que o assunto é tão amplo.

Cheguei ao ponto que seria injusta com o próprio leitor se não começar pela minha história. Se passou por sua cabeça agora: Ela é dependente química? Não, mas tive pessoas muito próximas de mim com esta doença e sei bem o que é sentir pelo outro e como foi sendo moldurada a minha vida.

Como a minha abordagem é humanista e tendo como base teórica, Carl Rogers. No Livro “Um Jeito de Ser”, em um de seus capítulos ele fala sobre como a sua filosofia sob as relações interpessoais se desenvolveu em seu próprio crescimento e sobre seu pensamento.

Longe de mim me comparar a ele, mas tendo sim, como referência para me debruçar em seus conceitos.

Me recordo de quando era adolescente, me envolvi em um projeto para implantar um grupo de autoajuda familiar e para o dependente químico em Limeira.

Nesta época, nada na minha vida havia surgido, apenas sentia a necessidade de fazer algo em prol ao outro, sem a mínima noção sobre o futuro.

Meu entendimento era raso, mas a vontade se fazia maior, em busca de conhecimento.

Lembro que pegávamos uma Kombi e íamos até Campinas para ouvir o Padre Haroldo. E com o tempo o grupo foi estruturado e tem o funcionamento até hoje (Amor Exigente).

Depois deixei o grupo porque comecei a faculdade de Serviço Social, meu sonho era Psicologia, mas não tinha condições financeiras para manter, optei pelo curso que era cabível e qual inseria disciplinas de psicologia, sociologia, filosofia entre outras.

 

 

Em 1993 no terceiro ano da faculdade, com 20 anos de idade eu ganhei meu maior presente. Tive a minha filha.

Recordo que escolhi fazer o estágio em um Centro Comunitário em uma periferia da Cidade, e quando eu descia do ônibus sempre um moço estava à minha espera e me acompanhava até o C.C., anos depois descobri que aquela pessoa que me protegia nas ruas era um dependente químico do bairro.

Escrevi meu TCC sobre Dependência Química, enquanto empurrava com o pé o carrinho para a minha filha dormir.

 

 

Terminei a faculdade e por vários motivos não segui a carreira. Após este ano eu descobri que uma pessoa muito amada da minha família estava envolvida com o uso de álcool e cocaína, meu amor era e é tão grande que o ajudei dentro das minhas possibilidades.

Me vi sentada num grupo de autoajuda e também naquele que há anos colaborei um pouquinho para o seu nascimento.

Com isto fui me integrando cada vez mais no assunto, pois o que era apenas uma talvez “curiosidade”, naquela hora era dor e necessidade.

Hoje faz 21 anos que ele está sóbrio e é meu porto seguro, o mesmo que me incentivou a escrever.

Depois de anos veio acontecer com a segunda pessoa que também amo muito, eu e a minha família respiramos, nos unimos, e, começamos tudo novamente.

Neste tempo trabalhei em outras coisas antes de fazer Psicologia, mas quando comecei o curso nada me segurava, foi árduo, noites sem dormir, sem convívio social me privando de muitas coisas. Resolvi novamente escrever a Tese sobre Dependência Química. Lembro exatamente que na apresentação havia apenas a minha mãe na sala. As críticas da banca foram intensas, no corredor esperando chamar para saber a nota, minha mãe disse: não desista, se preciso faça tudo novamente, mas fui aprovada com a nota máxima.

Assim que formada, comecei a atuar na área e em seguida tive outra pessoa em minha família com o mesmo problema, porém a dor se fez maior.

Parecia que havia sumido tudo o que eu sabia, foi desesperador. A equipe com quem eu trabalhava me afastaram do apoio à família, porque eu não tinha a mínima condição de ter força para falar para nenhuma família algo que os confortassem, ou que pudesse passar segurança.

Hoje, continuo na área e tenho uma família unida e compreendo o porquê tudo aconteceu dessa forma. A luta foi grande, mas conseguimos, porque cada um deles também permitiu ser ajudado.

Amigos, maridos e esposas podem um dia cansar e desistir, mas a família sempre tem esperança, então acredite, faça e confie!

 

 

Porque não desisto?

Porque vejo no olhar da família um pedido de ajuda e sei o que estão querendo dizer mergulhada na profundeza do sofrimento.

Recebo ligações de pessoas que atendi, falando como a sua vida está sem o uso de substâncias psicoativas e/ou álcool, e, suas conquistas. Familiares agradecendo o trabalho da equipe multidisciplinar.

É gratificante quando escuto; você foi uma das pessoas que acreditou que eu podia mudar a minha história. Simplesmente eu respondo: foi você que permitiu mudar, empregando significado em suas dores e buscando se fortalecer em suas potencialidades.

Tenho ótimos companheiros de trabalho que não tiveram as experiências que tive, mas são excelentes profissionais.

Tenho parceiros do CAPS AD que dão seguimento durante e após tratamento, mas que lutam antes da pessoa ser encaminhada para uma internação.

Tem várias religiões que acolhem a família e o dependente químico, uns que se pautam na fé e outras que cedem espaço para reuniões de grupo de autoajuda (Amor Exigente, A.A, N.A, Nar-Anon entre outros), tanto para a família quanto para a pessoa que é portadora da doença.

 

 

Então deixo meu alerta para os profissionais, não se feche em sua própria ideologia, sob tal vertente, pois quem se prejudica é o que mais procuramos ajudar.

Se unam, porque os recursos são vastos e temos muito o que fazer.

 

Fotos: Gisele Cristina Silva.

 

2 comentários em “Dependência Química e entrelaços pessoais.

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    novembro 7, 2019 em 8:31 am
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    Gi…vc continua sendo.minha psicóloga preferida…e lendo agora seu relato,pude entender o pq…Não conhecia a fundo sua história…e agora só te admito ainda mais e entendo como vc pode me ajudar tanto…pq sabia exatamente pelo que eu passava. GRATIDAO por essa essa pessoa e profissional que é…

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      novembro 8, 2019 em 2:12 pm
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      Milena, obrigada pelo carinho de sempre.
      Eu acompanhei você por um tempo e sei como se empenhou tanto no conhecimento como na compreensão pautada no amor. Este último você tem bastante, me orgulho muito de você!

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