A vida era boa. Era muito boa na verdade!

 

Eu me  formei em Educação Física em 2010, e depois de ter morado na Irlanda por um ano (2013/2014) e ter feito um mochilão por 7 países, eu decidi que era a hora de realizar um sonho que  tinha guardado no coração há um certo tempo: trabalhar em um navio de cruzeiro!

 

 

Em setembro de 2015 lá fui  eu, mais uma vez, colocar a vida toda  dentro de duas malas e voar para Veneza, onde o navio me esperava.

O roteiro iniciava na Itália e passava pela Grécia e  Croácia. Depois começava tudo de novo e  apesar do roteiro ser sempre o mesmo, cada cruzeiro era único.

E aquele lugar era incrível! A casa de lata (como a tripulação carinhosamente chama o navio) foi minha casa durante 8 meses. Oito meses de trabalho sem um dia de folga,  nem sábados, domingos ou feriados. Se era bom? Pra mim era incrível. Eu trabalhava como instrutora esportiva durante o dia e à noite ajudava a equipe de animação com o entretenimento dos passageiros, nos jogos e nas festas.

 

 

Foram 8 meses assim. Acordando às 08:00 e indo dormir muitas vezes  às 02:00. Era muito bom!

Conheci pessoas de todos os lugares do mundo, conheci vários países, praias incríveis e guardo imagens que nunca mais sairão da minha memória e do meu coração. Fiz amigos, me apaixonei, ri muito e chorei algumas vezes,  por que, afinal, não dá pra sorrir o tempo todo.

Foi muito difícil dizer tchau quando chegou o dia do desembarque, em maio de 2016. Era muito bom estar voltando  pra casa por que eu estava exausta, física e psicologicamente. Mas o desejo de viver aquilo de novo era maior que o cansaço.

 

 

É engraçado como a gente faz planos e não pensa que nem tudo está sob o nosso controle, né? Aliás, será que temos controle sobre alguma coisa? A resposta veio um tempo depois…

Decidi que iria tentar fazer a minha cidadania italiana durante as férias, enquanto aguardava ansiosamente minha data de reembarque.

Gastei quase todo o dinheiro que ganhei no navio com os documentos e certidões necessárias para levar pra Itália.

Dois meses e meio depois de desembarcar lá vou eu  de novo, com a vida em duas malas,  rumo à  Itália.
Destino: Genova!

 

 

Passei um mês e meio lá juntando os outros documentos necessários e tentando dar entrada na cidadania.Durante a semana eu cuidava  disso e passeava, e, no final de semana eu só passeava.

Setembro chegou! O verão estava praticamente no fim.

Vamos dar uma volta de moto em uma cidade perto daqui? Perguntou o rapaz que eu namorava na época.Claro, por que não?  E fomos!

Estranhamente, do momento que decidimos passear até subir na moto, duas coisas aconteceram que pareciam me dizer “não vai, fica em casa”. No total foram três “sinais”.

 

 

Primeiro eu desci os quatro andares de escada do prédio onde eu morava e chegando lá embaixo percebi que tinha esquecido o capacete. Voltei!

Quando fomos pegar a moto que ficava guardada na rua de cima do prédio, o meu namorado percebeu que tinha esquecido o controle do portão. Ele voltou pro prédio enquanto eu esperava sentada em frente à garagem.

Se eu percebi tudo isso na hora? Obviamente não!

A ida foi tranquila. Pegamos um caminho que passava por dentro das cidadezinhas. Na volta decidimos ir pela rodovia pois era mais rápido.

Durante a volta a terceira coisa aconteceu: O óculos de sol que eu usava começou a subir devido ao vento que batia no meu rosto e entrava pela viseira que estava aberta. Pensei em pedir  para ele parar e eu tirar o óculos, mas nessa hora passamos por uma placa que mostrava que Genova não estava tão longe e então decidi não dizer nada.

A última coisa que eu lembro é  de um carro passando pela minha esquerda. Ele queria nos ultrapassar mas acho que não calculou exatamente a distância para voltar para a faixa da direita.

O carro bateu na moto e nós caímos.

Eu não perdi a consciência e a primeira coisa que eu pensei foi que estava em uma rodovia e que precisava me levantar e sair  dali.

Eu tentei, mas não consegui! Minha cabeça foi a única coisa que saiu do chão quando tentei me  levantar.

O desespero bateu. Por que eu não consigo me mexer? Por que eu não sentia nada? Eu não conseguia pensar direito. E lá eu fiquei, deitada na estrada com um monte de gente estranha do meu lado tentando me acalmar, chorando e não entendendo nada, até o socorro chegar.

Fui sozinha na ambulância até o hospital. Os paramédicos me faziam perguntas básicas para ver se eu estava lúcida e por sorte eu tinha aprendido a falar italiano no navio, de modo que a comunicação não foi tão difícil.

Cheguei no hospital e fui direto pra ressonância. A partir desse momento começa  uma fase onde tenho poucas lembranças ou apenas flashs dos acontecimentos. Não sei se é um truque da nossa mente que quer nos poupar das dores e lembranças difíceis ou se isso é por causa dos remédios fortíssimos que eu tive que tomar.

Resumo da ópera! Fratura da quinta e sexta vértebras cervicais com rompimento total da medula espinhal. Diagnóstico: Tetraplegia.

Dois dias depois eu fiz a cirurgia para reparar as vértebras que eu fraturei. Colocaram uma placa, parafusos e um colar cervical que não me deixava olhar pro lado. Lembro que esse dia meu pai já tinha chegado na Itália.

Como desgraça pouca é bobagem, não contente, peguei uma bactéria no pulmão que os encheu de muco e enquanto almoçava comecei a ter dificuldades para respirar. Lembro que me tiraram às pressas do quarto e o que aconteceu depois foi minha mãe que me contou.

Colocaram-me em coma induzido e fiquei um tempo assim. Tentaram me tirar do coma mas eu ainda estava com falta de ar. Coma induzido de novo. Os médicos não queriam continuar me colocando e tirando do coma e então fizeram uma traqueostomia.

Acordei na UTI. Lá eu fiquei por três semanas…as piores da minha vida!

Você não sabe o que é passar por algo ruim até que você cai em uma UTI. Consciente, sem mexer e sentir um músculo sequer do pescoço para baixo, com sondas em vários lugares, comendo pelo nariz e respirando por um aparelho.

A minha visão era o teto e o que mais eu alcançasse com os olhos sem poder mexer a cabeça, ou seja, não muito.

Na UTI tem muito barulho. É quase enlouquecedor aqueles bip bip dos aparelhos de todo mundo que está lá.

Os dias eram intermináveis e as noites impossíveis de dormir.

A hora das visitas era boa mas com a traqueostomia eu não conseguia falar, só sussurrar.

 

 

Em português para os meus pais era fácil, mas sussurrar em italiano para os médicos e enfermeiros não era tão simples.

E quando eu precisava chamar os enfermeiros? Minha voz era quase imperceptível com aquele tubo na minha goela e um furo no pescoço.

Desenvolvi minha própria maneira! Eu usava a língua  para fazer uma espécie de estalo que soava como “cloc cloc”.

Às vezes eu fazia isso porque precisava ser aspirada (tirar o muco do pulmão que de hora em hora começava a incomodar absurdamente) e escutava um enfermeiro gritar “ Arrivo Thaís!!”, que significa mais ou menos “Já vou!”. O ser humano é extremamente adaptável quando precisa sobreviver.

Eu era a pessoa mais nova da unidade de terapia intensiva. Estava com 27 anos na época e não sei se era  por isso mas os enfermeiros me mimavam. Colocavam um rádio atrás da minha cama onde tinha um programa que tocava músicas antigas, tipo anos 80. Era um momento feliz em meio ao caos que havia se instalado na minha vida. Era engraçado, eu ria de tudo e não estava preocupada com o que estava acontecendo. As bênçãos da ignorância e de remédios fortes!

Os dias foram passando e as semanas também. Os médicos me tiraram da ventilação. Foi difícil reaprender a respirar pois o ar não vinha quando eu inspirava e era desesperadora a sensação. Depois disso me lembro que foi a hora de voltar a comer normalmente e não mais por uma sonda que ia do nariz até o meu estômago. Eles e deram gelatina. Foi a melhor gelatina da vida!

Chegou a hora de dar tchau para a UTI e voltar para o quarto.

Enquanto tudo isso acontecia, meus pais tentavam descobrir como seria possível voltar pra casa nessas condições tão delicadas. Eles foram até o consulado brasileiro na Itália e receberam a seguinte notícia: não temos condições de fretar um avião equipado para levá-la até o Brasil. Vocês terão que ficar aqui até que ela tenha condições de voltar em um vôo convencional.

Por sorte, o consulado indicou um grupo de brasileiros que ajudam outros em situações como essa que estávamos passando.

Foram anjos! Estiveram por perto até o dia que eu voltei pra casa e sem eles não sei o que teria acontecido com a gente. Gratidão eterna a Associação Luanda.

Começava ali a segunda parte de uma história que durou 10 meses na Itália.

Consegui uma vaga em um hospital de reabilitação em uma cidadezinha do litoral chamada Pietra Ligure.

Ali começou todo o processo de reaprender a viver. Fazer as coisas mais básicas que o ser humano faz e nem se dá conta de tão automático que ficou, como por exemplo  comer, escovar os dentes, pegar um copo, fazer xixi, tomar banho, pentear os cabelos, me deslocar de um lado para o outro, e talvez a coisa mais difícil de todas, não desistir da vida.

A primeira delas foi conseguir ficar sentada na cadeira de rodas sem desmaiar por queda de pressão.

 

 

A primeira vez foi terrível. Não consegui ficar nem cinco minutos e logo vi tudo preto e com  estrelinhas. De volta pra cama.

Outro dia, outra tentativa. O objetivo era ficar  dez minutos. E consegui!

E assim foi, cada dia um pouco mais até que passei 8 horas sentada e não queria mais voltar pra cama, afinal, já tinha passado tempo demais deitada né?

O dia que eu tomei banho com água depois de mais de um mês tomando banho de leito foi inesquecível. Usaram uma espécie de maca impermeável e eu fiquei deitada só curtindo a sensação de cada gota de água que eu sentia. Eu lembro até quem eram os enfermeiros naquele dia: Paula e Giani.

Outro momento feliz era secar o cabelo. O ambiente hospitalar é frio por natureza e algumas pessoas com lesão medular tem problema de regulação de temperatura, ou seja, eu sentia frio o tempo todo.

Quando a enfermeira vinha com o secador eu fechava os olhos e aquele ventinho quente era tipo um carinho. A vida ainda tinha momentos bons mas era difícil enxergar em meio ao caos.

A rotina era acordar às 07:00, tomar café da manhã, três horas de fisioterapia todos os dias, terapia ocupacional, almoço, cafezinho da máquina depois do almoço, exercícios aeróbicos ou algum jogo de grupo, eletroestimulação, quarto e jantar.

A hora do café, depois do almoço, era um momento engraçado pois  formava-se  uma fila de cadeirantes em frente a máquina de café no hall de entrada do hospital. Cada um devidamente munido com seu cafezinho,  e então era hora de ir para frente do hospital onde batia sol. Ficava um muro de cadeirantes que mais pareciam lagartos ao sol. Sinto falta disso hoje…

 

 

Banho lá era dia sim e dia não. Imagina o sofrimento para uma brasileira acostumada a tomar dois banhos por dia?

Os meses foram passando, os movimentos foram voltando, as coisas foram sendo reaprendidas, adaptações foram criadas mas tinha dias que eu só sabia chorar e ficar no quarto.

Não queria ver ninguém além da minha mãe. Não é tarefa simples manter a cabeça firme e em certos momentos eu quis muito desistir da vida e acabar com ela.

Era difícil ver que todo mundo que recebia alta não saía de lá andando, e pior ainda, saber que eu também não iria.

Por sorte eu tinha uma psicóloga que me ajudou muito, remédios que na época foram necessários e minha mãe que é o maior exemplo de força que eu tive na vida.

Foi difícil, por incrível que pareça, dizer adeus ao hospital depois de nove meses lá. Gratidão eterna a Unità Spinale dell’Ospedale Santa Corona e a todos que lá trabalharam durante aquele período.

Era bom voltar pra casa mas era apavorante saber que a partir do momento que eu chegasse no Brasil seria “vida real”, sem médicos, sem enfermeiros, sem casa adaptada e sem saber por onde começar.

 

 

Aqui fomos buscar formas de continuar o tratamento e descobrir o que o nosso governo oferecia para pessoas com lesão medular. Descobri que apesar de tudo posso me considerar sortuda de ter sofrido o acidente fora do país.

Infelizmente a realidade em grande parte do país não chega nem perto do tratamento que eu recebi na Itália.

Encontramos uma clínica de neuroreabilitação em Limeira e lá estou desde outubro de 2017.

Tive ganhos consideráveis desde o início do tratamento mas a reabilitação é pra sempre. Seja em uma clínica, em uma academia, com atendimento domiciliar ou vendo vídeos na internet e fazendo em casa, uma pessoa que tem 80% do corpo imóvel não se pode dar ao luxo de ficar parada.

Recentemente o esporte entrou na minha vida e agora sou atleta de natação categoria S2.

 

 

Minha vida atualmente é baseada em fisioterapia, equoterapia, natação, eletroestimulação, terapia ocupacional e terapia com psicólogo.

Tento fazer o máximo de coisas possíveis  que me dão prazer como estudar idiomas, sair pra jantar, conhecer lugares, pessoas interessantes, bares, pubs, etc.

Descobri com o passar do tempo que eu sou a mesma Thaís, só que agora na versão “sentada”. Que eu ainda tenho os mesmos gostos, a mesma personalidade, o mesmo gênio forte, a mesma vontade de viver de antes do acidente e que eu não tenho que aceitar menos do que eu mereço pelo simples fato de ser uma cadeirante tetraplégica.

Não sei se minha história de vida é um exemplo a ser seguido, mas uma coisa que eu sei é que tenho muito orgulho da pessoa que me tornei depois de ter vivenciado tudo isso. Tenho orgulho de não ter desistido, de ter me mantido firme, de ter reaprendido muitas coisas mesmo sem ter os movimentos das mãos, de ter aprendido a ver o lado bom de tudo, de sorrir mais do que chorar, de não reclamar da vida pois por pior que seja a situação tem sempre alguém que gostaria de estar no seu lugar, de apreciar as pequenas coisas e os pequenos gestos pois eles são sempre os melhores e mais importantes.

 

 

Tenho orgulho de ter visto os meus sonhos e a minha independência sendo arrancados de mim, sem dó nem piedade em uma fração de segundo, e mesmo assim conseguir fazer novos planos para o futuro.

E mais do que qualquer outra coisa, hoje com 30 anos e faltando 10 dias para completar 3 anos do acidente que virou minha vida do avesso, tenho orgulho de estar aqui contando a minha história para vocês. Você pode fazer o que quiser desde que você se esforce bastante e não desista.

A vida é bonita mesmo vista de um ângulo mais baixo e você é muito mais forte do que você imagina.

 

Tenha um lindo dia.

Capa & Fotos: Thaís Guidotti

 

 

12 comentários em “A vida era boa. Era muito boa na verdade!

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    setembro 30, 2019 em 2:23 pm
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    Thaís você é uma vencedora é eu também pois tive um tumor no cérebro e em 2011fiz a cirurgia que mudou minha vida e minha maneira de andar mas agradeço a Deus por não ter ficado numa cama e poder estar com minha família. Cuide-se bem você é exemplo pra muita gente. Bj.

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      outubro 1, 2019 em 10:50 pm
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      Obrigada pelas palavras Silvio! Tenho certeza que a sua história de vida tem muito pra ensinar também!

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    setembro 30, 2019 em 4:09 pm
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    Me emocionei
    Vc me fez chorar
    E reforçar sentimentos de otimismo e perseverança dentro de mim.

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      outubro 1, 2019 em 10:29 pm
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      Muito feliz em saber que passei uma mensagem positiva para você Ricardo! ❤

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    setembro 30, 2019 em 6:45 pm
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    Que incrível história!!! Fiquei lembrando muito do Orestes e tudo que fazíamos por lá!! Do cursinho, dos apelidos, da HOLAAAA….Hahahahah. A sua história é inspiradora pelo simples fato de que você mesma diz que não mudou nada!

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      outubro 1, 2019 em 10:31 pm
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      Ah minha amiga! Quanta saudade dos tempos da escola!! Tantas lembranças maravilhosas! Que bom que você está presente em todas elas! Saudades de você! Obrigada pelo carinho!

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    setembro 30, 2019 em 6:46 pm
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    Tenho orgulho dessa menina, ainda mais por ser minha filha.

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      outubro 1, 2019 em 10:33 pm
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      Obrigada pai! Sou o reflexo do que você e a minha mãe me ensinaram durante todo esse tempo!

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      outubro 1, 2019 em 10:34 pm
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      Obrigada pelo carinho!!

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    outubro 3, 2019 em 1:09 pm
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    Tata vc é um exemplo sim! Foi muito bom eu ler isso, pois estamos passando por maus momentos com o transplante do meu pai, mas Deus em sua infinita misericórdia sabe o que faz neh. Não temos o controle de nda nessa vida. E sobre a UTI, é exatamente como vc descreveu
    Vamos confiar em Deus, ele está cuidando de tudo.
    Bjos Tata.
    Fica com Deus.

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      outubro 4, 2019 em 10:18 am
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      Tata vc é um exemplo sim! Foi muito bom eu ler isso, pois estamos passando por maus momentos com o transplante do meu pai, mas Deus em sua infinita misericórdia sabe o que faz neh. Não temos o controle de nda nessa vida. E sobre a UTI, é exatamente como vc descreveu
      Vamos confiar em Deus, ele está cuidando de tudo.
      Bjos Tata.
      Fica com Deus.

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